3 anos sem beber: o que aprendi, onde errei e como será o futuro

Tempo de leitura: 11 minutos

3 anos sem beber: o que aprendi, onde errei e como será o futuro

Muitas pessoas tiveram a oportunidade de ouvir ou ler um pouco sobre a minha história, seja pessoalmente, através de vídeos, artigos, livros  (ah, sim, dia 29/06/2017 será lançado um livro onde compartilho um pouco sobre a minha história) ou posts no Facebook. Ontem eu lembrei que, neste mesmo dia, três anos atrás, foi a última vez que eu tomei um porre. Hoje estou há 3 anos sem beber.

Decidi escrever este texto depois da repercussão do que aconteceu com o ator Fábio Assunção. Eu fiquei ainda mais indignada com tamanha “grandeza” de alguns, em formar sua opinião sobre as pessoas baseado no Facebook ou um vídeo isolado. É engraçado como elas conseguem determinar quem e o que as pessoas são só pelo Facebook. É triste ver a incoerência do ser humano a cada dia que passa.


Conheci o Fábio Assunção em 2015, ele tinha dirigido a peça de teatro “Dias de Vinho e Rosas”, espetáculo que narrou a relação de amor e de alcoolismo entre duas pessoas, interpretado pela atriz Carolina Mânica e o ator Daniel Alvim. Saí do teatro emocionada. E depois disso eu tive a oportunidade de dizer pra ele o que àquela peça havia causado dentro de mim:

“Fabio, agradeço por compartilhar conosco algo tão doloroso e libertador. Doloroso porque é difícil pra nós, nos reconhecermos como fracos e carentes de ajuda. Libertador, porque muita gente que estava na plateia teve ideia do que é viver preso a um vício. E, muitos, puderam refletir se realmente têm o controle de seus desejos e atitudes. E, outros, assim como eu, puderam sentir o gosto da libertação mais uma vez, mas com a certeza da missão que terá daqui pra frente em relação à vida de outras pessoas que precisam dessa mesma libertação.”

Ele respondeu: “Fizemos com amor. Aprendi muito olhando de fora. Agora estou feliz. Mais ainda com esta tua mensagem. Te desejo amor e independência.”

Mas, em pleno 2017, presenciei um linchamento virtual e o prazer que as pessoas sentem pela desgraça alheia. Fiquei triste. Porque o Fábio é um gigantesco humano e como ele mesmo disse, “não é fácil, mas reconhecer meus erros e procurar sempre aprender com eles é o que eu desejo.”

Tomar a decisão de eliminar completamente o álcool da minha vida, foi uma das escolhas mais conscientes que já fiz. Não pense que este texto é para incentivá-lo a largar sua cervejinha, até mesmo porque isso precisa ser uma decisão SUA e SE você achar necessário, porque é você quem precisa ser responsável pela sua vida. Acontece que, por ter falado inúmeras vezes (inclusive depois daquela ressaca brava) que eu deixaria de beber, muitas pessoas não acreditaram em mim quando novamente eu disse que pararia de beber.
Confesso que nem eu estava acreditando. Mas hoje resolvi compartilhar quais foram os ganhos que obtive ao parar de beber.

Coisas que aprendi:

1.Deixei de lado a auto-depreciação e passei a me amar mais.

Um dos meus maiores motivos para continuar persistindo nessa escolha, é saber que, a cada manhã, tenho uma nova oportunidade para construir e reconstruir a minha vida e por isso eu tenho duas escolhas: aumentar a felicidade ou dar corda para o sofrimento. Durante muito tempo fugi de mim mesma. Por isso, tive que parar, sentar e entender quem realmente era/é a Júlia e em quem ela queria/quer se tornar, porque eu ainda estou em construção. E pretendo continuar assim pra sempre, me descobrindo, me conhecendo e me amando.

2. Eu bebo sim e estou morrendo!

A Organização Mundial de Saúde tem considerado o abuso do álcool como o segunda maior causa de morte no mundo (3.300.000 mortes/ano), que é só superado pelas mortes devido ao fumo (6.000.000/ano). Aproximadamente 10% dos cânceres, 20% dos acidentes e 7% do total de mortes estão relacionadas com o abuso da bebida. (Lifestyle Medicine, 2011, pagina 214, by Garry Egger).

Em 2005, a USP fez seu segundo Levantamento Domiciliar Sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil: 19,2% dos jovens entre 17 e 24 anos são dependentes do álcool. Esses mesmos jovens não aprenderam a dosar a quantidade de álcool ingerida, são considerados dependentes porque fazem uso regular.

Mas a situação pode piorar: a cada 36 horas, um jovem morre por causa de transtornos relacionados ao abuso de álcool no Brasil segundo o portal Datasus. Infelizmente, há 11 meses, eu perdi minha irmã num acidente de carro. O motorista que conduzia o carro em que eles estavam, havia bebido e o acidente foi fatal. Um outro acidente envolvendo um caminhoneiro alcoolizado foi responsável por matar a mãe, pai, irmão e namorado de uma amiga. A única sobrevivente ao acidente, foi ela.

O que eu quero dizer é que você não deve pensar da mesma forma que a letra de uma música diz: “eu bebo sim e tô vivendo”… não, coleguinha, apesar de nem sempre ser prejudicial, o consumo de álcool muitas vezes pode se tornar um vício que destrói a vida das pessoas.

3.Você não precisa de bebida para ser feliz!

Quando comecei a me questionar: existe vida sem bebida? É possível sentar pra conversar com meus amigos sem ter álcool no meio? Eu também achava que não! Porque durante muito tempo o álcool foi minha muleta. Muleta para me entrosar, para me soltar, para fazer o que eu queria e que quando estava sóbria não tinha coragem. Muleta para esconder quem eu realmente era.

E aí percebi que o álcool havia virado um hábito na minha vida. No meu caso, um hábito ruim. Por isso qualquer processo para mudar um hábito, seja ele qual for, é difícil e doloroso. Ainda mais quando está relacionado com hábitos em que todas as pessoas ao seu redor fazem a mesma coisa, chega a ser quase impossível, mas não é.

4.Meus arrependimentos diminuíram significativamente

Quem nunca se arrependeu daquele WhatsApp enviado? Ou daquela ligação para o ex? Eu também já me arrependi. E muito. Acontece sempre achei que eu era livre, mas tenho descoberto que a minha maior liberdade têm sido a de poder fazer as minhas próprias escolhas, baseadas na minha razão e percepção sobre mim mesma.

5.As pessoas não sabem lidar com quem não bebe

O mais estranho pra mim foi ter que lidar com “amigos” que diziam: “ah, se não for pra beber comigo nem precisa sair”, “ah, não precisa parar de vez é só diminuir”, “ah, vai parar de beber? HAHAHAHA tá bom! Eu DUVIDO!” e tantos outros comentários que prefiro nem colocar aqui. Óbvio que muitos desses “amigos” não fazem mais parte da minha vida. Quando você decide parar de beber, você também precisa mudar o seu círculo de amigos. E isso explica que muitos deles não eram meus amigos, porque só amigo de verdade consegue enxergar você além da bebida.

6.Eu passei a ser mais produtiva.

Só depois de muito tempo dentro de bares e baladas, foi que eu pude perceber o tanto de tempo que desperdicei com coisas improdutivas e muitas das quais nem me lembro mais. Hoje, na maior parte do tempo que tenho livre, busco ler, estudar, fazer um curso novo, enfim, agora aprendo muito mais.
O meu tempo tem sido investido em melhorar quem eu sou e em quem eu posso ser.

7.Aprendi a não fugir dos meus problemas!

Quando você passa a entender qual é o plano de Deus para você, qual é o propósito da sua vida e como funciona o amor de Deus por mim e por você, aí não existe escravidão. Você passa a ter forças para encarar seus fantasmas. Só quem já foi escravo, sabe o que é liberdade. Só quem já foi cego, sabe o que é visão.
Só quem já foi dependente da bebida, sabe o que é estar sóbria.

Onde errei:

(vixi, pra não ficar cansativo vou colocar apenas 3 erros, mas foram vááários)

1.Eu achava que podia parar de beber quando quisesse.

E essa brincadeira de “eu sei a hora de parar” levou 10 anos, mas muitas pessoas que eu conheço apenas pensam que conseguem parar. É muito difícil reconhecer nossas fraquezas. O começo sempre é o mais difícil, mas faça uma breve análise sobre sua vida nos últimos dias ou meses e perceba como tem sido. Talvez você precise da ajuda de um amigo ou profissional da área. Mas não fique aí pensando que está tudo bem, quando na verdade, não está nada bem. Existe uma página no Facebook chamada “Amigos Anônimos“, disponível 24h por dia caso você sinta vontade de conversar sobre isso.

2.Eu bebia para esquecer.

Um estudo publicado pela revista Translational Psychiatry, elaborado por pesquisadores da Universidade Johns Hopkins, de Baltimore (EUA) revelou que ao tomar uma dose isso ativa certas regiões do cérebro relacionadas exatamente ao aprendizado e à memória. Por isso eu sempre vivia no passado, à mercê de situações que já haviam acontecido e não tinham mais volta, mas que eu insistia em trazer à tona depois de beber. Como por exemplo: meus traumas.

3.Era só uma cervejinha…

Ninguém que eu conheço sai de casa para tomar apenas uma cerveja. Podemos até falar: “só uma, heim?!”, mas sempre acabamos ficando para algumas a mais. Beber tem efeitos em todo o cérebro e o primeiro a ser afetado é o nosso córtex-pré frontal, região responsável pela nossa tomada de decisão e que após ingerirmos álcool, tem a sua atividade reduzida.
O jeito é saber administrar os nossos momentos de lazer e, sobretudo, saber quando vale a pena pedir outra cerveja ou ir embora para casa.

Como será o futuro:

1.Continuarei desenvolvendo a minha Inteligência Emocional

Sem Inteligência Emocional qualquer pessoa cede ao impulso do vício. Nossas emoções básicas provocam diferentes reações em cada pessoa como: raiva, medo, tristeza, culpa, solidão, carência e alegria.
Se você não souber como esses sentimentos agem em sua vida, pode ter certeza de que seu cérebro criará maneiras inconscientes de fuga.

Você só aprenderá a controlar os seus vícios quando aprender a lidar com suas emoções! Sou grata por isso, porque hoje estou mais preparada se algo ruim acontece. Se você deseja aprender mais sobre suas emoções, desenvolva sua Inteligência Emocional com o curso Caminho para Inteligência Emocional, o curso apresenta o conceito de inteligência emocional, qual a sua importância através de técnicas de Coaching e como este conhecimento pode ser aplicado de forma eficiente em sua vida pessoal e profissional.

2.Continuarei descobrindo quem eu sou.

Quantas coisas pensei que gostava, mas que na verdade nunca gostei. E quantas coisas que hoje eu gosto e que nunca soube que eu gostava. Aprendi a ser eu mesma sem efeito de álcool. Aprendi que aquela pessoa que viveu anos sob efeito de álcool, não era eu. Não sou nenhuma daquelas coisas estúpidas que fiz, sou uma pessoa que está se desConstruindo a cada dia.

3.Não sou perfeita e tá tudo bem.

A bebida sempre foi minha maior inimiga dentro dos meus relacionamentos. A minha decisão de parar de beber trouxe à tona muita culpa, vergonha e arrependimento. Porém, hoje sou quem sou e vivi tudo o que quis viver tentando sentir através do álcool.

É fato que todos os dias preciso tomar uma decisão consciente e como diz lá no A.A. “só por hoje…”, afinal, para cada dia basta o seu mal, né? E mesmo quando sinto que a vida é injusta e fico querendo beber como qualquer outra pessoa, logo em seguida eu me lembro que essa é a minha história de perseverança.
Sabe aquela música do Cidade Negra: “Você não sabe o quanto eu caminhei… pra chegar até aqui…”
Pois é.

E você, já tentou ficar sem beber?

Sou a prova viva de que é possível viver sem beber.
Espero que, ao compartilhar este pequeno relato sobre minha história e tudo que aprendi nessa minha pequena jornada da vida, te ajude a começar ou a continuar na sua jornada, errando, mas voltando rápido para viver a vida que você merece, afinal, com álcool você já sabe como é a vida. Sem ele, como será?

Júlia Audi

Master Coach, escritora, empreendedora e radialista.
Júlia Audi

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